O lado humano do digital

Publicado a Out 29, 2019

O lado humano do digital

É incontornável voltar ao tema da evolução digital e à forma que veremos transformada a nossa vida pessoal e profissional, em múltiplos aspectos, sendo que o mais determinante irá ser a acrescida dependência que toda a sociedade terá da informação provinda da inteligência artificial.

Já hoje se questiona até que ponto o lado humano da decisão fica de parte num processo que vive cada vez mais de algoritmos, pelo que é aconselhado ver mais de perto toda esta evolução.

Passam agora 22 anos desde que o Deep Blue da IBM derrotou o então campeão do mundo de xadrez, Gary Kasparov. Desde então, o princípio de vasos comunicantes entre a contribuição humana e tecnológica no desenvolvimento dos produtos e serviços, se tem desequilibrado a favor do último.

Quando consultamos um site da Trivago, que nos propõe diferentes escolhas para um determinado local de destino, não vamos posteriormente validar se os dados estão correctos, caso a caso, uma vez que cremos na veracidade da informação, cabendo-nos a simples tarefa de decidir pela melhor, por nenhuma ou voltar a ter acesso à informação mais tarde.

Quando nos socorremos do GPS e ele nos indica a melhor rota para determinado destino, tendo em consideração a distância e o tempo previsto, não fazemos um telefonema antes para descortinar se é essa a realidade. Obedientes, seguimos a rota recomendada, na certeza de que a mesma é a melhor solução.

O mesmo se poderia aplicar à quantidade de informação e recomendação ao cliente em cada negócio de retalho, conduzindo-o para as compras mais inteligentes, mais saudáveis, mais sustentáreis e amigas do ambiente, mais económicas, etc….

A este propósito, olhemos para um episódio ocorrido com o cartão de fidelização mais antigo do mercado, o Clubcard da Tesco. Em 1994, num período de 3 meses, a empresa contratou um equipa para desenvolver um algoritmo assente na qualidade da informação recolhida sobre os clientes que extravasou em muito os dados demográficos e atingiu os patamares de atitude face à compra, estados emocionais, etc… que permitiu customizar a comunicação e a oferta, com resultados visíveis em termos de adesão, aumento da satisfação de clientes e enorme crescimento de vendas. Na apresentação de resultados, o conselho de administração da Tesco reagiu da seguinte forma: “o que mais nos preocupa em tudo isto é que a vossa equipa tenha conseguido saber mais acerca dos clientes em 3 meses do que nós em 30 anos”.

Todos parecem ganhar: quem vende explora uma oportunidade nova de chegar ao mercado, quem compra sente-se mais cómodo, gere melhor o tempo e os recursos, quem programa encontra uma indústria que não vai parar de florescer. E é por isso que se prevê o crescimento exponencial da Inteligência Artificial e se assiste a uma guerra de mercado como não se via desde a descoberta do petróleo.

Do ponto de vista de marketing empresarial, esta questão passou a ser estratégica. Se o mundo se torna global, se podemos ter acesso a quase tudo a partir de qualquer ponto, é bom que estejamos presentes. Assim, para a grande maioria dos negócios de grande consumo ou que operem em diversos mercados, a notoriedade passou a ser crítica.

Isto é, se o algoritmo na pesquisa não nos coloca (visivelmente) na frente da corrida, não existimos. É muito comum dizer-se que o segredo melhor guardado está na página 2 do Google, onde ninguém vai.

E de que depende essa visibilidade? Quem é o responsável pelo formato do novo algoritmo?

Já existem algoritmos para agir como decisores autónomos, sejam penas de prisão, tratamentos oncológicos, seguros de vida ou sobre o que fazer perante um acidente de automóvel.

Mas é bom não esquecer: é o lado humano que desenha o algoritmo e se faz pagar por isso. Nada do que conhecemos como Inteligência Artificial foi desenvolvido sem a Inteligência Humana e a sua independência está muito longe de acontecer.

O que a Inteligência Artificial produz sem a Inteligência Humana, não chega ao equivalente do cérebro de uma minhoca, que tem 302 neurónios. Ora, o nosso cérebro tem 100.000.000.000 de neurónios.

E é assim que estamos a iniciar o tempo em que a Inteligência Artificial combate a própria Inteligência Artificial. Através da Inteligência Humana!

Livro Recomendado
Novacene: The Coming age of Hyperintelligence, James Lovelock

 

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