Há duas situações, nas quais o marketing é conotado com o pior dos sentidos: quando transmite uma ideia que não corresponde à realidade e quando se aproveita de qualquer situação menos favorável para daí tirar partido.

Numa análise SWOT, as Oportunidades e Ameaças derivam de factores externos que podem influenciar positiva e negativamente a actividade de uma entidade ou marca. Saber tirar partido das oportunidades é um acto de gestão estratégica inteligente. Resta discutir se esse fim, por si só, justifica os meios. Para tal, seleccionei o caso recente do resgate dos mineiros chilenos em San Jose.

Resultado do infortúnio, 33 mineiros ficaram soterrados durante 69 dias a 750 metros de profundidade. Quis o empenho, a persuasão, a inteligência, a tecnologia e a sorte que pudessem ser resgatados, de forma ilesa, numa operação com uma enorme cobertura mediática. Um canal norte-americano referia-se ao facto como o maior reality show alguma vez vivido e visto em todo o mundo.

Assim sendo, a notoriedade deste caso tomou proporções que despertaram o interesse de um sem número de interlocutores, que viram no acontecimento uma oportunidade:

  • A Oakley ofereceu os seus óculos de ultra protecção solar e fará uma grande campanha a propósito;
  • A Apple, através do próprio Steve Jobs, já fez saber que entregará a cada mineiro e sua família um Ipod dos mais sofisticados;
  • Um empresário sul-coreano pagará 10.000 dólares a cada mineiro para acompanharem a sua selecção de futebol num jogo que promoverá no seu país;
  •  Uma cadeia de comida japonesa em Santiago do Chile abrirá as suas portas durante um ano aos mineiros e suas famílias, oferecendo as refeições;
  •  As equipas de futebol do Real Madrid e Manchester United convidaram os mineiros para assistirem a um dos seus jogos com viagens pagas;
  •  Uma agência espacial japonesa ofereceu, a cada um, 5 peças de roupa espacial;
  • Uma loja de roupa íntima de Santiago do Chile ofereceu os seus artigos de graça às mulheres dos mineiros;
  • Uma das maiores empresas vinícolas do Chile, MontGras, conceberá uma edição especialmente dedicada aos mineiros
  • Por último, uma ex-participante de um reality show chileno, Adriana Barrientos, prefere recompensá-los com um striptease para “subir o ânimo”.

Preocupados com a fama, os 33 chilenos já pensam em criar um fundo patrimonial. Neste momento, segundo o New York Times, há mineiros que cobram até 25 mil dólares para conceder entrevistas sobre histórias pessoais vividas no fundo da mina.

Também o governo chileno, que geriu toda a cobertura televisiva do evento, tirou partido do momento, criando o conceito Brand Chile, como forma de aumentar a visibilidade do país. Para o efeito, o presidente chileno Sebastián Piñera já garantiu presença na City de Londres, juntamente com David Cameron, onde apelou ao investimento internacional no Chile.

Perante este cenário de final feliz é tempo de olharmos para quem ficou para trás.

Quando a mina deixou de funcionar cerca de 300 mineiros ficaram sem trabalho. Criou-se um mal-estar geral porque a empresa Minera San Esteban, com um passivo de 9,500 milhões de dólares, deixou de cumprir as obrigações salariais.

No mesmo dia do resgate, foram encontrados os corpos de 2 mineiros soterrados a 150 metros de profundidade numa mina no Sul do Equador. Ninguém soube. Ninguém vai saber. Porque o marketing é cruel!

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Published On: Outubro 20, 2010 /