O turismo em Portugal continua a afirmar-se como um dos motores fundamentais da economia nacional, perspetivando-se que, no final de 2025, atinja uma receita de cerca de 30 mil milhões de euros. Os números de hóspedes deverão atingir os 32 milhões e as dormidas 80 milhões, com especial destaque para os mercados do Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e Espanha. Estes números revelam a vitalidade do setor, mas também levantam questões críticas sobre gestão, equilíbrio territorial e sustentabilidade.

No segmento hoteleiro, Lisboa e Algarve lideram em ADR (tarifa média diária), frequentemente acima dos €100 por noite. No entanto, a análise do RevPAR (receita por quarto disponível) mostra uma realidade mais complexa: se, em agosto, hotéis do Algarve podem ultrapassar os €120 de RevPAR, em janeiro este indicador desce para cerca de €30. Este desfasamento evidencia a forte sazonalidade do turismo português e a dependência de poucos meses de elevada procura.

O alojamento local (AL), que em cidades como Lisboa e Porto tem grande representatividade, desempenha um papel central na diversificação da oferta e na captação de públicos mais jovens. Contudo, levanta dilemas relacionados com o mercado habitacional e pressões regulatórias que poderão reduzir a sua expressão. É que um estudo da ALEP / Nova SBE concluiu que o AL representa cerca de 42% das dormidas turísticas em Portugal, muito acima dos 15% reportados pelo INE, porque este apenas considera unidades com 10 ou mais camas. Um exemplo prático: em Lisboa, certas freguesias apresentam já rácios de turistas por residente que colocam em causa o equilíbrio urbano.

Paralelamente, segmentos emergentes como o campismo e glamping registaram crescimentos superiores a 10% em 2024, refletindo a procura por experiências de natureza, autenticidade e sustentabilidade. Alojamentos diferenciados como treehouses, cabanas, podsyurts, tendas de luxo estão a crescer muito mais rapidamente do que tendas simples. Estas tendências abrem espaço para o desenvolvimento de destinos menos massificados, como a Serra da Estrela, o Douro interior ou o Alentejo rural, que podem contribuir para combater a concentração no litoral. Dentro da mesma lógica, o turismo de aventura em Portugal cresce com base na natureza e no desporto. Em 2024, cerca de 18% dos turistas praticaram caminhadas e montanhismo, enquanto o surf atraiu 15%. O setor desportivo, ligado também ao turismo ativo, gerou quase 2 mil milhões em volume de negócios e emprega mais de 52 mil pessoas.

No entanto, a comparação internacional ajuda a relativizar os resultados. Espanha ultrapassa largamente os 300 milhões de dormidas anuais, enquanto Itália e França apresentam maior diversificação regional e cultural. Portugal tem a vantagem da escala compacta e da diversidade em curtas distâncias, mas precisa de reforçar estratégias de valorização da experiência.

Na verdade, é aqui que a atitude e a gestão fazem a diferença, porque um ADR elevado ou um número recorde de hóspedes são apenas indicadores parciais. Se olharmos para as faixas etárias percebemos que a Gen Z e jovens Millennials já representam uma parte grande da procura, valorizando experiências imersivas, autenticidade, contacto com a natureza, “experiências Instagramáveis”, e sustentabilidade.

O verdadeiro desafio está em combinar boa taxa de ocupação com preços sustentáveis, garantindo um RevPAR consistente ao longo do ano. Isso exige profissionalização da gestão, atenção às necessidades dos clientes e políticas públicas coerentes. A crítica é construtiva: Portugal celebra com frequência os recordes anuais, mas deve olhar para além do crescimento bruto. É fundamental medir bem, gerir melhor e apostar em estratégias de longo prazo que conciliem rentabilidade, equilíbrio territorial e qualidade de vida.

in https://executiva.pt/blogues/turismo-em-portugal/

Published On: Setembro 17, 2025 /