Faz agora um ano que teve lugar a tomada de posse de Donald Trump.

Na primeira fila, ao invés de banqueiros e donos de grandes petrolíferas, estiveram presentes os maiores empresários de grandes tecnológicas e media norte-americanas. Elon Musk, o dono da Tesla e SpaceX e que foi um dos aliados de Trump durante a campanha, tinha a seu lado Mark Zuckerberg, o fundador e CEO da Meta, a dona do Facebook e Instagram. Na mesma fila encontravam-se Jeff Bezos, o fundador da Amazon, e Sundar Pichai, o CEO da Alphabet, a dona da Google.

Posteriormente, Elon Musk foi nomeado para o governo norte-americano, assumindo o Departamento de Eficiência Governamental. Zuckerberg viajou consecutivamente para a Mar-a-Lago, a propriedade de Trump na Florida, e alterou a política de moderação no Facebook e Instagram, por exemplo. Além dele, também a Amazon, OpenAI ou a Google doaram um milhão de dólares para o comité de tomada de posse da nova administração.

Isto não era assim! Mas o protagonismo destas empresas é fácil de explicar. É que o somatório da capitalização bolsista da Apple, Microsoft, Google, Amazon, Facebook e NVidia, por exemplo, coloca-as atualmente no patamar da 2.ª maior “economia” mundial, num valor aproximado a 20,7 biliões de dólares, acima do PIB chinês que atingiu 18,4 biliões, e apenas atrás do PIB dos EUA, que totalizou 28,3 biliões de dólares.

Não é difícil antever quem estará na pole position das regras do jogo mundial dentro em breve: é que as economias norte americana e chinesa crescem a um ritmo aproximado de 4-5% ao ano, ao passo que o valor das empresas tecnológicas (ex Nasdaq) cresce anualmente a um ritmo aproximado de 20%. Enquanto as economias crescem a trote, as líderes tecnológicas evoluem a galope. E este racional é válido para ambos os hemisférios.

Até hoje, as grandes marcas mundiais foram gerando valor consecutivamente, fruto do seu elevado grau de diferenciação, centralidade nos clientes e inovação, fazendo parte das listas comuns das mais valiosas. É esta a história da Apple, Mercedes, Samsung, McDonald’s, L’Oréal, Bank of America, Allianz, Louis Vuitton, Caterpillar ou Accenture, apenas para citar exemplos de diferentes nacionalidade e indústrias num sistema capitalista. Todas vivem em mercados fortemente competitivos, onde enfrentam concorrentes de grande qualidade e valor percebido.

Atentemos, então, ao contexto dos modelos de negócio de alguns destes tubarões tecnológicos para encontrar a razão de ser desta nova era empresarial, onde assistimos a um novo paradigma.

Muitas das tecnológicas operam com dois tipos de stakeholders: 1) as empresas, que procuram capitalizar a sua presença na “nuvem”, através de milhões de apps que se incluem nos ecossistemas Android (Google com a Playstore) ou IOS (Apple Store); 2) os utilizadores, quais trabalhadores não remunerados, que alimentam a informação protagonizada pelos algoritmos das redes sociais, para fins profissionais ou pessoais, através das suas preferências, preconceitos, piadas, insultos, avaliações e os detalhes íntimos da nossa vida. É assim que o Google Maps nos avisa de que está trânsito no nosso percurso ou que nos são sugeridos monumentos e restaurantes a não perder, após uma pesquisa virtual a uma cidade.

Na verdade, enquanto utilizadores, fazemo-lo voluntariamente e desfrutamos do processo. Mas feitas as contas, assistimos a ecossistemas que se alimentam de conteúdo gratuito e cada vez mais vasto, nos quais encontramos uma série de lojas virtuais (apps) que pagam bastante para se fazer notar neste novo “shopping center”.

Estamos mesmo a assistir a uma situação sem precedentes. Se os custos com pessoal de uma grande empresa automóvel, indústria farmacêutica, hotelaria, banca, seguros, etc. podem intervalar entre 30% a 70 % das receitas geradas, no caso das grandes tecnológicas esse valor não ultrapassa 1% do volume de negócios. É que a maior parte do trabalho é realizada por milhares de milhões de pessoas de forma gratuita.

Encontramo-nos perante um sistema quase feudal. Não é, pois, de estranhar que a foto da tomada de posse do presidente norte americano tivesse estes convidados na primeira fila. A dúvida que persiste num futuro próximo, é sobre quem tira a foto e quem é o fotografado.

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Published On: Janeiro 28, 2026 /