O Ocidente precisa tanto da China como esta precisa do Ocidente e o seu destino estará profundamente ligado.
Os dados de crescimento do PIB per capita real de vários países, entre 2000 e 2025, medida em paridade do poder de compra, isto é, tendo em consideração o incremento do custo de vida, coloca a China num lugar de destaque absoluto, com um aumento acumulado de 518%.
Este indicador, por si só, não explica tudo, mas é um excelente ponto de partida para compreender a profundidade da transformação económica chinesa e o seu impacto no mercado global, na tecnologia, no comércio internacional e, mais recentemente, na inteligência artificial.
Durante as últimas duas décadas, a China deixou de ser apenas “a fábrica do mundo” para se afirmar como um mercado interno gigantesco, sofisticado e cada vez mais orientado para gerar valor acrescentado. O crescimento do rendimento per capita criou uma classe média urbana com poder de compra, exigente e digitalizada, capaz de sustentar marcas nacionais fortes e modelos de negócio escaláveis. É aqui que encontramos a explicação para a resiliência e a ambição global das empresas chinesas.
No plano empresarial, a evidência é clara: várias empresas chinesas conseguiram globalizar-se para lá do sector tecnológico, com a descoberta da importância da marca. Exemplos como a Huawei (telecomunicações), a BYD (mobilidade elétrica), a Haier e a Midea (eletrodomésticos), a Lenovo (hardware), a Geely e a SAIC (automóvel), a COSCO (logística) ou a State Grid (energia) demonstram uma presença internacional cada vez mais sólida. Operam com especial força no Sudeste Asiático, África, América Latina, Médio Oriente e, em alguns sectores, na Europa. Em muitos destes mercados, a proposta de valor combina preço competitivo, velocidade de execução e crescente qualidade tecnológica.
Por outro lado, no comércio mundial, a China consolidou-se como o maior exportador global e um dos principais parceiros comerciais de mais de 120 países. A Iniciativa “Belt and Road” reforçou corredores logísticos, acesso a recursos estratégicos e influência económica, criando uma teia de interdependências difícil de ignorar. Este acesso a matérias-primas, energia e infraestruturas tem evidenciado um trunfo decisivo num contexto de fragmentação geopolítica.
O capítulo tecnológico também merece um destaque especial. A China investe mais de 2,5% do seu PIB em investigação e desenvolvimento, forma milhões de engenheiros por ano e possui um ecossistema de inovação fortemente apoiado pelo Estado, mas executado pelo mercado. No domínio da inteligência artificial, a ambição é explícita: liderar globalmente. A China é já líder em volume de dados, aplicações de IA em larga escala (fintech, vigilância, saúde, mobilidade, indústria) e em áreas como visão computacional e reconhecimento de padrões. Empresas como Baidu, Alibaba, Tencent, iFlytek ou SenseTime competem diretamente com gigantes norte-americanos, beneficiando de um mercado doméstico que funciona como laboratório vivo.
Num contexto de bipolaridade EUA–China, o mercado global está a reorganizar-se em torno de cadeias de valor mais regionais, alianças estratégicas e novas dependências tecnológicas.
Um exemplo claro é o que resulta da Parceria Económica Regional Abrangente (RCEP), que é um tratado de livre comércio, que visa reduzir tarifas e burocracia, unificar regras de origem e fortalecer as cadeias de abastecimento, envolvendo o Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Singapura, Tailândia, Vietname, Japão, Austrália, Coreia do Sul e Nova Zelândia e que representam, no seu conjunto, mais de 30% do PIB mundial.
Ignorar esta realidade é um risco estratégico significativo para qualquer organização com ambições de crescimento. Para empresas, países e decisores, compreender esta dinâmica deixou de ser opcional: é uma condição para competir no novo panorama mundial.
Sobre o que virá aí, não faço prognósticos. Mas de uma coisa podemos estar cientes: o Ocidente precisa tanto da China como esta precisa do Ocidente e o seu destino estará profundamente ligado. A maior economia mundial e um país com mais de 1.400 milhões de pessoas não desaparecem apenas porque queremos ignorar ou desconsiderar a outra parte.
in https://rr.pt/artigo/convidado/2026/01/19/china-da-fabrica-do-mundo-ao-laboratorio-e-a-marca/455753/

